Carlos Heitor Cony: afasta de mim este cálice

Norton Frehse Nicolazzi Junior

Mestre em História pela UFPR.

MBA em Instituições de Ensino pela UnicenP-Centro Universitário Positivo.

 

1º de abril de 1964. Os militares assumem o controle do Brasil. Algo que até então parecia improvável, se mostrou realidade na sua acepção mais dura e crua. Diante de uma realidade verde-oliva, quase nada restou aos que desejaram protestar. Nesse cenário de tanques e generais, um grito contido: o Correio da Manhã publicou uma série de crônicas do jornalista Carlos Heitor Cony. Esse artigo procura analisar o conjunto destes textos, publicados ainda em 1964, como instrumentos de protesto diante da conjuntura que se instalou no país.

Palavras-chave: Golpe Militar de 1964; Brasil, história política; Carlos Heitor Cony.

 

As promessas de varrer as sujeiras e a corrupção do país elegeram Jânio da Silva Quadros para o cargo máximo da democracia brasileira, fora eleito Presidente da República. O populismo da mortadela ganhou. Porém, alguns meses antes, em viagem familiar, Jânio manteve contato com personalidades internacionais, muitas delas vistas como personae non gratae pelos líderes e simpatizantes do bloco capitalista. Conheceu Mão Tse-Tung, Kruschev e visitou a ilha de Cuba durante campanha (algum tempo depois, condecorou Ernesto Guevara com a ordem do Cruzeiro do Sul). Vale lembrar que era época de guerra fria, talvez o pior período dela, as ameaças de uma terceira guerra de proporções mundiais quase virou realidade na Crise dos Mísseis, em 1962.

       Jânio, com maioria esmagadora de votos, foi eleito em 3 de outubro de 1960. Apesar da confiança popular depositada no primeiro presidente a tomar posse na nova capital federal, “forças ocultas” o impeliram a renunciar em 25 de agosto de 1961. Assumiria o seu vice, caso este não estivesse em viagem diplomática à China comunista. Setores da reação articularam para que João Belchior Marques Goulart, o Jango, ficasse o mais distante possível do poder. Leonel de Moura Brizola encabeçou a Rede da Legalidade, tentativa de impedir que conservadores oligárquicos udenistas tomassem o poder. Jango assumiu o poder, de forma parlamentarista é verdade, mas assumiu. Nos anos que se passaram foram gastas todas as energias para garantir a governabilidade do país. Em 1963 um plebiscito garantiu o retorno do presidencialismo. Era tarde demais.

       Em março de 1964 Jango deu um tiro no próprio pé. Defendendo as reformas de base, o então presidente cutucou onça com vara curta. O Comício da Central do Brasil, realizado no dia 13 de março, fez com que grupos reacionários ficassem extremamente incomodados com as propostas de reformas anunciadas pos Jango. A reação veio na sua forma mais burlesca, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, onde a classe média urbana se manifestou contrária às práticas consideradas comunistas. Era preciso evitar que as criancinhas virassem banquete para os repugnantes vermelhos. Não tardou e as elites dominantes alçaram o poder via Forças Armadas.

       A revolução (para os militares) ou golpe (para a grande maioria de seres pensantes) havia iniciado. Ironia pura, já que nem mesmo a data de início ficou clara naquele momento e nem hoje. Carlos Heitor Cony, na qualidade de colunista do Correio da Manhã, fez publicar, com uma ferocidade quase animal, suas impressões a respeito do que ele chamou de quartelada de 1º de abril[1]. Quartelada, pois para Cony “o movimento armado de abril – ou março – (é preciso, o quanto antes, que o Ato Institucional faça um novo artigo definindo de uma vez por todas essa questão) não contou com a participação nem com o apoio do povo”[2].

       A série de crônicas escritas por Cony e publicadas já a partir do dia seguinte do golpe, constitui um farto material para melhor se compreender o processo de tomada de poder pelos militares em 1964. Trata-se de uma visão especial, já que testemunha ocular dos fatos, e de um discurso que se propõe apartidário, entretanto crítico. Muito crítico. Tentarei assim, nas próximas linhas, demonstrar como o conjunto literário publicado com o título O ato e o fato constitui-se em um discurso sobre o movimento militar instaurado no Brasil pós-abril de 64 e, ao mesmo tempo, consiste em uma manifestação concreta de caráter revolucionário.

       Primeiramente, devo esclarecer a escolha desta obra de arte específica, literária por excelência. Arte é a capacidade de o ser humano por em prática uma idéia, é a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação. Assim, considero as crônicas de Carlos Heitor Cony perfeitamente capazes de serem enquadradas na definição anterior. O autor vivenciou as transformações daquele abril de 64, esteve nas ruas, viu os soldados, sentiu a repressão e transformou toda aquela experiência em textos curtos, quase como um diário de um estrangeiro em terras inóspitas. O estado de espírito dele e da época, vistos do seu ponto de vista, não só podia criar novas formas de arte e de renovação, como acabaram por criar de verdade um sentimento de resignação e de euforia. Luis Fernando Veríssimo atesta isso na introdução à reedição da obra

Eu costumava ler o Cony regularmente no Correio. Me agradavam seu modo de escrever e seu humor (...) e de repente, depois do 1º de abril, ali estava aquele cara dizendo tudo que a gente pensava sobre o golpe, sobre a prepotência militar e a pusilanimidade civil, com uma coragem tranqüila e uma aguda racionalidade que tornava o óbvio demolidor – e sem perder o estilo e a graça. Em pouco tempo aquele ato, ler o Cony, se tornou um exercício vital de oxigenação para muita gente, e a sua coluna uma espécie de cidadela intelectual em que também resistíamos – mesmo que a resistência consistisse apenas em dizer “É isso mesmo!”, ou “Dá-lhe, Cony!”, a cada duas frases lidas. “Leu o Cony hoje?” passou a ser a senha de uma conspiração tácita de inconformados passivos, cujo lema silencioso seria “Pelo menos eles não estão conseguindo engambelar todo o mundo”[3].

É assim por toda a obra, impressões de um momento histórico de importância basilar para o Brasil. Um passeio pela avenida Nossa Senhora de Copacabana, acompanhado do bardo Carlos Drummond de Andrade, é motivo para buscar a compreensão de todos aqueles tanques nas ruas. Cony sentiu a necessidade de conferir os acontecimentos in loco. Na crônica publicada no segundo dia da ditadura militar, ele afirma confiar “estupidamente no patriotismo e nos sadios princípios que norteiam as nossas gloriosas Forças Armadas”, porém vai às ruas “ver o povo e a história que ali, em minhas barbas, está sendo feita”[4].

A postura adotada por Cony durante os dias que seguiram o golpe, na forma de suas crônicas, é por si só revolucionária. Em um momento da história em que não se podia falar abertamente dos acontecimentos, o autor procurou manifestar suas impressões. Não tardou a receber ameaças, sendo inclusive acusado em um processo junto ao Alto Comando do Exército. Talvez, o fato de ser publicamente conhecida sua maneira de pensar, tenha contribuído para que nada mais drástico ocorresse, como é sabido que ocorreu com vários opositores do regime militar. Sabe-se que Cony nunca foi comunista, também nunca manteve vínculos administrativos, políticos ou sociais com aquele governo deposto. Era notória sua oposição ao deposto ex-presidente João Goulart. Seus artigos, inflamados, é claro, apenas manifestavam a expressão pessoal de uma opinião que já aparecera anteriormente na sua obra literária. Ou seja, não se tratava de uma ofensa direta e sem fundamentos, mas sim de uma análise que estava em sintonia com tudo o que ele já havia escrito e publicado. Assim, suas crônicas acabam sendo uma verdadeira revelação do período.

Depois de alguns dias do fatídico 1º de abril, com a ininterrupta publicação das crônicas, é possível que possamos estabelecer um panorama daqueles tempos idos. Têm-se ali elementos que permitem acompanhar os nove meses subseqüentes ao golpe, narrados no calor dos acontecimentos, praticamente um inventário do período. A posse do primeiro presidente militar, as medidas editadas pelos militares, as manifestações sufocadas, a reação internacional diante do ocorrido, está tudo ali nas linhas escritas por Cony. É perfeitamente viável inteirar-se da história lendo suas crônicas.

Portanto, trata-se de um discurso sobre o movimento militar instaurado no Brasil pós-abril de 64, já que manifestação por meio de uma linguagem, em que há predomínio da função poética. Resta agora demonstrar como esse discurso é também um discurso revolucionário, que instiga a reflexão e, de certa forma, incita a sublevação, mesmo sem estar essa idéia tão explícita nos textos de Cony.

Inicialmente, é verdadeiro afirmar que o teor das crônicas ultrapassa o adjetivo ríspido, apesar de maravilhosamente bem elaboradas. São textos ásperos, provocativos, que nos fazem pensar em como puderam ser permitidos sua publicação. Os ataques feitos a certas personagens do processo acabam por ser hilariantes. É o exemplo de A Natural História Natural, na qual Cony cita um livro escolar utilizado por sua filha que cursava a 3ª série primária. O capítulo referente aos invertebrados ganha vida nova quando comparado com a situação do país

(...) aproveito a oportunidade para oferecer a gregos e troianos, reacionários e revolucionários, guardiães da ordem vigente e pilares da sociedade, essa modesta contribuição à análise de cada um.

De protozoários estamos cheios, transbordam pelas ruas, pelos quartéis, pelas repartições, caem do céu, sobem da terra: é uma invasão. De animais que se defendem com o mau cheiro que exalam – a prudência me aconselha o silêncio. (...) há os animais que se comunicam através de guinchos e uivos. Tive o desprazer, em dias da semana passada, de receber alguns telefonemas desses animais.[5].

A debochada descrição dos animais que compõem a sociedade que Cony analisa é ferina. Penso eu que, não sendo o mesmo reconhecido por seus trabalhos, teria agonizado nos porões da ditadura, sem o menor dó ficaria horas dependurado nu em um pau-de-arara. Não bastasse o caráter zombeteiro do texto em questão, Carlos Heitor Cony assume o papel de líder revolucionário, desfiando suas palavras numa evidente conclamação à reação. Os três últimos parágrafos dessa crônica são exemplares nesse sentido, e merecem aqui sua transcrição

Além dos animais que se comunicam com uivos e guinchos, há o homem. O livro, embora primário, é categórico ao afirmar: “só o homem tem o dom da palavra”.

E é através da palavra, é pronunciando-a clara e corajosamente, sem medo, que podemos unir todos os homens e a eles nos unir contra todos os animais que para sobreviverem exalam mau cheiro, mudam de feitio e cor, usam chifres e patas.

Animais que para sobreviverem precisam da força e da estéril tranqüilidade que só a imbecilidade dá e sustém[6].

Naquela conjuntura, nada poderia ser tão revolucionário e de alcance tão vasto quanto as crônicas de Cony publicadas no Correio da Manhã. O exemplo acima é ainda do mês de abril, outros oito meses se passaram recebendo nas páginas daquele diário as palavras de contestação e de incredulidade, mas que nunca se curvaram ao sistema que se estabeleceu. Mesmo sendo ameaçado, sendo processado pelo então ministro da Guerra, ele continuou bradando sua indignação. E, ele fez questão de deixar isso bem claro, consciente de seu papel de resistência: “foi daqui, desta modesta coluna, que praticamente se aglutinou o primeiro protesto público contra as arbitrariedades e violências de um movimento armado que nos envergonhou e ainda nos maltrata”[7].

Diante de uma situação limítrofe, a análise do conjunto de crônicas permite perceber que o jornalista Carlos Heitor Cony assumiu uma postura revolucionária, ainda que tenha insistido em negar isso todo o tempo. O protesto que ele afirma fazer tem um alcance muito maior do que o simples questionamento. Vai além. Gera expectativas, cria esperanças e redesenha o cenário que os militares ousaram construir. Suas palavras duraram enquanto ainda havia liberdades, depois veio a censura. Com ela veio o silêncio. Pudera, os militares não poderiam permitir que outros fizessem o que fez Cony: expor ao ridículo toda aquela situação, todos os envolvidos, fossem eles situação ou reação.

Trata-se de um discurso revolucionário? Sim, na íntegra. Tão revolucionário quanto guerrilhas armadas, quanto seqüestros de embaixadores, quanto manifestações estudantis. Foi revolucionário por gerar reflexão, por retirar do conforto de meros espectadores todos aqueles que liam sua coluna. Nesse sentido podemos afirmar que O ato e o fato, ou melhor, as crônicas publicadas no Correio da Manhã, constituem-se em um discurso sobre o movimento militar instaurado no Brasil pós-abril de 64 e, ao mesmo tempo, consistem em uma manifestação concreta de caráter revolucionário. É uma obra de arte, literária, que dialoga com o processo histórico brasileiro, seja ele golpe, como de fato foi, seja uma revolução, como queriam os militares. Aí reside a sua importância contextual. “Aqui acaba o livro. Mas a luta ainda não acabou. O povo brasileiro continua sem caminhos, sem líderes, sem soluções”[8]. As palavras que encerram a compilação original de 1964 soam tão atuais...



[1] CONY, Carlos Heitor. O ato e o fato: o som e a fúria das crônicas contra o golpe de 1964. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004. Doravante as citações desta obra serão feitas conforme o título da crônica e a data de sua publicação.

[2] CONY, op.cit. O povo e os Caranguejos. 21/04/1964.

[3] VERISSIMO, Luis Fernando. A última ironia. IN: CONY, op.cit. p.8.

[4] CONY, op.cit. Da salvação da Pátria. 02/04/1964.

[5] CONY, op.cit. A Natural História Natural. 19/04-1964.

[6] Idem.

[7] CONY, op.cit. Aos meus leitores. 23/09/1964.

[8] CONY, op.cit. Uma Palavra Ainda. 12/1964.


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