ALUNO(A)______________________________________________________________________    TURMA:6ª _____ DATA: 06/11/09    VALOR: 30    HORÁRIO: DAS 7h20 ÀS 8h50            

PROF: Miriam Miglioli ( mirian@grupointegrado.br )                     NOTA: ___________

                                    

                                                                 ATIVIDADES DE LÍNGUA PORTUGUESA                                 

 

                                                                       As atividades deverão ser copiadas e respondidas no caderno.

O padeiro

Rubem Braga

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento – mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento, ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

– Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?

“Então você não é ninguém?”

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém...

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina – e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”.

E assobiava pelas escadas.

 

In: Para gostar de ler, vol I - Crônicas . Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino,

Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. 12 ed. São Paulo: Ática.1989. p.63-64. Disponível em:

<http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/cronicas/rubembraga.htm>. Acesso em: 6 mar. 2009.

 

QUESTÃO 1- Com base na crônica lida, respondam, individualmente, mas trocando ideias entre vocês, as questões a seguir: quais as personagens envolvidas? Qual o acontecimento narrado? Em que  lugar ocorre? Quanto tempo passa? Que reflexão sobre o comportamento humano nos apresenta o narrador?

 

QUESTÃO 2 - Que imagem você formou do narrador da crônica “O padeiro” quanto à idade que ele tem e à

forma como vê a vida?

 

QUESTÃO 3 - Que elementos do texto contribuíram para formar essa imagem?

 

QUESTÃO 4 - Com maior ou menor intensidade, todo narrador é um intérprete da sociedade em que vive e na qual produz a sua obra. Em sua opinião, que interpretação (visão) da sociedade aparece na crônica de Rubem Braga?

 

QUESTÃO 5 -. Observe o primeiro parágrafo da crônica:

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento – mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa

nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

 

I. As expressões “abluções”, “suspenderam” e “dormido” poderiam ser substituídas, sem significa-

tiva perda de sentido, respectivamente por:

a) rituais – elevaram – com sono

b) lavagens – proibiram – descansado

c) lavagens – levantaram – adormecido

d) rituais – ergueram – sossegado

e) lavagens – interromperam – de véspera

 

QUESTÃO 6 -. O uso do presente do indicativo, no início do parágrafo, poderia sugerir uma rotina. No entanto, ocorre um fato que nos mostra que o narrador não nos falará de uma rotina, mas de um acontecimento importante no passado que ainda está muito presente em sua memória. Identifique esse fato.

 

                          Ainda a crônica ...

                              Futebol, quantas alegrias já me trouxe

Costumo dizer que as mais puras e intensas alegrias da minha vida vieram do futebol. Tive inúmeras outras alegrias, é claro, mas nenhuma tão gratuita e intensa como as que o futebol me proporciona desde 1958, quando tinha seis anos de idade.

Em 1958 fomos campeões do mundo pela primeira vez, e podem me perguntar que sei ainda todinho o Hino da Seleção daquele ano. A Copa de 58 foi o momento de revelação do futebol, para mim, e as imagens mais fortes daqueles dias de Copa são do meu pai, de ouvido encostado no rádio, e explodindo em gritos de gol quando chegávamos a ele. Eu só tinha seis anos e ainda nada sabia de futebol, mas gritava junto com meu pai, e sentia nascer em mim a primeira emoção violenta da vida. Naquela época, ouvia-se o jogo pelo rádio, via-se as fotos dos gols uma semana depois, na revista O Cruzeiro, e, se se tivesse sorte, uns dois meses

depois podia-se ver os gols no cinema, no jornal que era apresentado antes dos filmes. Outra das imagens que ficou da Copa de 58 foi uma foto na revista, onde Pelé, menino de 16 anos, aparecia abraçado com duas suecas loiríssimas. Para a tacanha mentalidade que predominava em Santa Catarina, na época (e que  continua por aí, por baixo dos panos), aquilo era quase um atentado ao pudor. Duas loiras terem a coragem de abraçar um negro? O comentário mais sóbrio dizia que elas não tinham  vergonha na cara. Estava fora de cogitação os adultos da época pensarem na probabilidade de, algum dia, seus filhos e netos se miscigenarem com a gloriosa e alegre etnia negra, que tanto adoçou o Brasil. O fato é que, hoje, as miscigenações estão

acontecendo vigorosamente, e deverão aumentar de intensidade no futuro, neste país mestiço. E o menino Pelé, na época mais ou menos perdoado por seus gols pela indecência de abraçar duas loiras, hoje é rei e tem incontestável majestade e um dos orgulhos da minha família, por exemplo, é ter as fotos da minha irmã Mariana, que é jornalista na África do Sul, entrevistando Pelé em Joanesburgo. Mas falávamos em futebol, e atravessamos, ébrios de patriotismo, aqueles anos de 58 a 62. Em 1962 eu já tinha dez anos e o futebol tinha me fisgado de vez. De novo ouvi os jogos pelo rádio – a televisão não tinha chegado ainda. Naquela Copa, porém, minha alegria ficou um pouco acobertada pela surra que levei quando, num dos gols do Brasil, pulei tanto sobre o sofá novo pé-de-palito que a minha mãe acabara de ganhar, que quebrei o pé-de-palito do  mesmo. Mas foi lindo ganhar; ah! como foi! E aí chegamos em 1970, em plena época da televisão, e nunca mais vamos ter uma Seleção como aquela! Por mais que curta História, a minha grande admiração pelo  México não advém dos Maias e Astecas, mas do maravilhoso calor humano daquele povo que se colocou, decididamente, a torcer pelo Brasil, depois que o seu país foi eliminado da disputa. Maravilhosos mexicanos, vocês ficaram no meu coração! Na ocasião, eu tinha 18 anos, mas formei um firme propósito: não morrer antes de ver o Brasil campeão de novo, tamanha foi a emoção que vivi. Tive que esperar 24 anos para que tal acontecesse, tive que amargar todas as derrotas do intervalo, mas tinha a certeza de que não iria morrer antes de reviver a intensidade da alegria. Esperei 94 do mesmo jeito que esperara todas as outras copas: de camisa da Seleção, bandeiras na varanda, um monte de simpatias para dar sorte, e coração pulsando na mão. Pode rir quem quiser, mas sou daquelas torcedoras que ouve o Hino Nacional de pé e em silêncio, na frente da televisão, e quase tem um enfarto a cada jogada. Em 94, gravei todos os jogos da nossa Seleção, e aquelas fitas são, hoje, a minha certeza de alegria e de bom humor. Quando alguma coisa não vai bem, quando surgem os problemas e fica difícil sair do baixo astral, eu revejo um dos jogos da World Cup. Não demora muitos minutos para que eu esteja rindo sozinha igual a uma boba, na frente da televisão, o coração aquecido pela mais pura e intensa alegria. Minha meta foi atingida: vi o Brasil campeão mais uma vez. Só que agora não quero morrer sem ver o Brasil campeão de novo.

Ah! Futebol, quantas alegrias já me trouxe!

                                                                                                                                                                 KLUEGER, Urda Alice. Escritora e historiadora.

 

Responda às questões em seu caderno:

QUESTÃO 1 - . Como já vimos, todo narrador interpreta a sociedade em que vive e na qual produz a sua obra.Em sua opinião, qual imagem da sociedade aparece na crônica de Urda Klueger?

 

QUESTÃO 2 - Ao produzir a obra literária, o escritor abandona os registros habituais e adota outro sistema linguístico, o da linguagem literária. Nele, as palavras e expressões mais comuns,  não mais pertencerem ao sistema cotidiano de fala, mas ao sistema literário, mudam de valor. Urda constrói com a linguagem do dia-a-dia um texto de memórias e poesia. Desse modo, e com simplicidade, aproxima-se do maior número possível de leitores. Retorne à crônica de Rubem Braga e analise o uso que o autor faz da linguagem, seguindo o modelo de texto que acabamos de ler de Urda Klueger.

 

 

Atividades adaptadas  retiradas do site em 29/11/09http://stoa.usp.br/klein/files/1623/8977/2009Volume2_CADERNODOALUNO_LINGUAPORTUGUESAELITERATURA_1A.pdf

 

 


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