A Casualidade (ou não) da semelhança

 

                                                                                         Alunas: Jéssica Echs (30), Jéssica Burim (31), 

                                                                                    Juliana Leonardo (33) e Mariana dos Santos (41)

                                                                                                                          – 3º U, Colégio Santa Cruz

 

Dom Casmurro pertence à fase realista de Machado de Assis e é uma obra caracterizada, principalmente, por sua temática universal que visa abordar, sobretudo o aspecto psicológico do homem. É possível comprovar tal afirmação pelo fato da obra apresentar ritmo lento, capítulos curtos e não possuir uma narrativa linear, uma vez que o autor não foca sua escrita na sucessão dos fatos e sim numa análise subjetiva da essência humana. As digressões e o uso da metalinguagem, muito comuns à Machado, como no trecho “‘A vida é uma ópera’, dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um dia a definição, em tal maneira que me fez crê nela. Talvez valha a pena dá-la; é só um capítulo”, também servem como exemplo do desinteresse do mesmo de tornar sua obra uma seqüência de fatos. Outra característica observada nessa obra é a intertextualidade para enriquecer suas obras “De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência.”.

            A história acontece no Rio de Janeiro , no final do século XIX. Bento Santiago era adolescente e apaixonado por Capitolina, sua vizinha. Ambos queriam ficar juntos, mas tal fato não era possível, pois D.Glória, mãe de Bento o havia prometido ao Seminário. “Dona Glória, a senhora persiste na idéia de meter o nosso Bentinho no Seminário?(...)” .Ele vai para o Seminário, onde conhece Escobar, seu futuro melhor amigo. Ambos acabam abandonando os estudos eclesiásticos e Bento realiza seu sonho de se casar com Capitu. Capitu concebe um filho, o qual será motivo do conflito da história, visto que ele representa uma suspeita de adultério que fará Bento se separar de Capitu, uma vez que o filho possui grande semelhança física e psicológica com Escobar.           
          
A suspeita da traição da parte de Bento não se sustenta apenas com as semelhanças da criança com seu melhor amigo “
Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira, iam-se apurando com o tempo.”, há também o agravamento dessa desconfiança no episódio em que se narra a morte de Escobar, quando durante o velório, Capitu olha para o amigo de maneira diferencial, como se pode ver no trecho a seguir “Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas”

            O ciúme sempre fizera parte da essência de Bento Santiago, porém, no decorrer da história, este passa a tomar proporções tão grandes capazes de ser maior, inclusive que o amor “infinito” por Capitu, como exemplifica o trecho “Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror ou desconfiança”.

O enredo é narrado em primeira pessoa, prevalecendo o ponto de vista do narrador-personagem que pretende convencer o leitor da traição de Capitu. Vale lembrar que a traição é apenas uma suspeita. Mas o fato dela se comprovar ou não, não modifica os rumos da história. Se Bento Santiago resolve escrever sua biografa afim de comprovar a traição de Capitu, ele também precisa provar, pra ele mesmo, a veracidade do fato. A dúvida é tanta que mesmo ele dizendo que vive feliz, ele continua atormentado por sua suspeita, e sente uma necessidade de retomar sua vida enquanto jovem, quando o ciúmes, e a desconfiança não o haviam corrompido.

Por isso, quando velho e solitário procura reproduzir o ambiente em que antes vivia, construindo uma casa muito semelhante à de Matacavalos, o Engenho Novo, como numa tentativa frustante de “(...) Atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”. Essa tentativa é incompleta, pois o que falta para Bento não é uma casa igual, mas ele mesmo, como comprova o trecho “(...) mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.”

É possível perceber uma grande transformação na pessoa de Bento Santiago no decorrer da trama, ele deixa de ser Bentinho, o adolescente apaixonado e  imaturo; para se tornar, por causa do ciúmes, o  Dom Casmurro, um homem desiludido e amargurado pela vida.

A figura de Capitu também passa por grande transformação no decorrer da narrativa, visto que a história é narrada pelo próprio Bento, e o ponto de vista do mesmo também se modifica. Se num primeiro momento Capitu é vista como uma menina de olhar envolvente, num segundo, após a suspeita da traição seu olhar passa a ser dissimulado, ou seja, traiçoeiro, evidenciando mais uma vez a suspeita de traição.

A figura de Escobar tem papel coadjuvante, servindo apenas para que ao comparar o filho de Capitu com ele, Bento pudesse comprovar sua suspeita. “Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura.” 

A obra levanta discussões em relação a questão do ciúmes e da traição nas relações amorosas. É possível existir um amor eterno e verdadeiro que supera tudo? Mesmo sendo uma obra datada do início do séc XX, Dom Casmurro possui grande semelhança com a atualidade. Ainda hoje, o ciúmes conturba as relações amorosas, sendo o motivo de muitas separações. A grande diferença se dá na posição da sociedade em relação à separação. Por ter sido escrita no início do séc XX, Dom Casmurro revela a visão machista da sociedade brasileira que passava pela transição do Brasil-Imprério para o Brasil-República, que protanto, condenaria veemente a suspeita de Bentinho.

A visão idealizada do casamento vai abaixo em Dom Casmurro, quando Machado de Assis busca explorar o aspecto verdadeiramente humano, deixando de lado o “felizes para sempre!” típico do Romantismo. Isso torna a obra envolvente, uma vez que o leitor vê grande proximidade com a realidade, fugindo do prevísvel e levantando grandes discussões em o público “Teria mesmo Capitu traído Bentinho?”.

 

 

 

 


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